sábado, 13 de abril de 2013

"Quem se contenta"

Conto de Ítalo Calvino, escritor italiano

Havia um país em que tudo era proibido.

Ora, como a única coisa não proibida era o jogo de bilharda, os súditos se reuniam em certos campos que ficavam atrás da aldeia e ali, jogando bilharda, passavam os dias.

E como as proibições tinham vindo paulatinamente, sempre por motivos justificados, não havia ninguém que pudesse reclamar ou que não soubesse se adaptar.

Passaram-se os anos. Um dia, os condestáveis viram que não havia mais razão para que tudo fosse proibido e enviaram mensageiros para a avisar os súditos que podiam fazer o que quisessem.

Os mensageiros foram àqueles lugares onde os súditos costumavam se reunir.

- Saibam - anunciaram - que nada mais é proibido.

Eles continuaram a jogar bilharda.

-Entenderam? - os mensageiros insistiram. - Vocês estão livres para fazer o que quiserem.

-Muito bem - responderam os súditos. - Nós jogamos bilharda.

Os mensageiros se empenharam em recordar-lhes quantas ocupações belas e úteis havia, às quais eles tinham se dedicado no passado e poderiam agora novamente se dedicar. Mas eles não prestavam atenção e continuavam a jogar, uma batida atrás da outra, sem nem mesmo tomar fôlego.

Vendo que as tentativas eram inúteis, os mensageiros foram contar aos condestáveis.

-Nem uma, nem duas - disseram os condestáveis. - Proibamos o jogo de bilharda.

Aí então o povo fez uma revolução e matou-os todos.

Depois, sem perder tempo, voltou a jogar bilharda.


(Ítalo Calvino, Um general na biblioteca. Companhia das Letras, 2010)

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